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Loose Lips

Devaneios sobre tudo e sobre nada.

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30.Mai.18

Sobre o chumbo da eutanásia

Não estava à espera do chumbo. Não estava.

Achei que já tínhamos mostrado tantos sinais de progresso, que esta discussão era mais um pró-forma. Digam-me gente, como é que isto pode ser uma questão?! Ainda esta semana escrevi sobre isto, sobre o difícil que é despedirmo-nos de alguém que já não está, que já não é, de alguém que só é alguém porque respira, alguém que está em sofrimento e que está a fazer sofrer. Como é que pôr termo a isto pode ser uma questão? Onde está a humanidade de manter uma vida que não é vida?

Não estava à espera do chumbo. Não estava. E muito menos estava à espera de manifestações como as que assistimos, de gente da minha idade e mais nova, sem noção do que a eutanásia significa.

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"Por favor não matem os velhinhos"?! Foda-se gente! A sério que é isto que se acha?! Que com a aprovação da eutanásia vamos começar aí a distribuir pastilhas de cianeto para matar os velhinhos?! A sério?!

Que merda de geração vocês me saíram!

É que dos mais velhos eu até podia tolerar, agora da minha geração?! Uma geração que se diz a mais informada e tecnológica de sempre, uma geração consciente e ansiosa de mudança não sabe o que é eutanasiar?! Eu nem caibo em mim de vergonha alheia por isto.

 

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E depois, outra pérola: "Não mates, cuida!". A sério gente?! A sério?!

Saiam da vossa zona de conforto e vão a uma enfermaria com um sem número de doentes em estado vegetativo, falem com os cuidadores que puseram a vida em espera para que os seus tivessem um fim digno. Vão! Façam isso! Façam isso e vejam quantos cuidadores vos dizem que são contra a eutanásia. Façam isso e vejam quantos cuidadores o fizeram clandestinamente.

É tudo muito simples, isto de ser pró-vida, quando se fala de situações hipotéticas. É tudo muito fácil quando são os outros. Agora pensem que é um avô ou avó vosso, com demência, infeções generalizadas, insuficiências de tudo e mais alguma coisa, alguém que já não fala, não mexe, não come, não faz nada que não façam por si. Alguém que tem um sem número de feridas abertas de estar acamado, apesar de ser virado de duas em duas horas, feridas essas que têm de ser desinfetadas, feridas essas que emanam cheiros nauseabundos, feridas essas em que cabem mãos inteiras. Agora pensem que é um pai vosso, que teve um acidente de bicicleta, caiu de cabeça e ficou vegetal, ligado a todo o tipo de tubos, alimentado por sondas, que ainda vive porque ainda há luz para manter as máquinas ligadas. Isto é vida?! 

Os cuidadores merecem o nosso maior respeito. Agora não pensemos que a eutanásia serve para não se cuidar, para matar velhinhos, a eutanásia é pôr fim à vida onde a vida já não existe, onde já não há nada. E não se preocupem que não vamos agora nós matar velhinhos. Cada um sabe de si e cada um assinará, quando a eutanásia for aprovada, porque o vai ser, um termo de responsabilidade, em plenas faculdades mentais. A eutanásia não é uma desculpa para facilitismos de partilhas e coisas que tais, a eutanásia é sobre um fim digno, para todos os que o queiram, porque ninguém o decide por ninguém.

Não estava à espera do chumbo. Não estava. E muito menos estava à espera de viver num país onde é permitido o aborto e não é permitida a eutanásia. Onde está a coerência, gente?!