Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Loose Lips

Devaneios sobre tudo e sobre nada.

Loose Lips

Devaneios sobre tudo e sobre nada.

23.Fev.18

Commuting

93e7a384e0ceaec6991132404c09b957-754x394.jpg

 

 

Os puristas que me desculpem, mas não gosto da palavra comutar.

A minha vida nos últimos anos tem-se traduzido muito nisto: commuting. E isto porque há 62km que separam a minha casa do meu local de trabalho, que todos os dias precisam de ser percorridos duas vezes, e ainda que isto possa parecer um bicho de sete cabeças (acreditem que também eu achei isso, no início), acabou por se tornar numa coisa muito positiva.

Sim, é verdade que tenho de acordar 3 horas antes de começar a trabalhar, o que implica que para entrar às 08h30 acordo às 05h30 ou para entrar às 09h00 acordo às 06h00; sim, é verdade que ando numa constante correria para não perder o comboio e, quando isso acontece, fico numa correria constante contra o trânsito (muito!); sim, é verdade que, por vezes, depender de transportes públicos coloca muitos constrangimentos, sobretudo quando há atrasos ou greves; sim, é verdade que quando há tempestades as linhas de comboio deixam de funcionar e a pessoa tem de ir de carro, enfrentando todo um vendaval num pequeno Smart na autoestrada; mas também é verdade que tenho aproveitado este tempo para muitas outras coisas e um bom exemplo disto é a leitura - se a viagem de manhã é passada a dormir, a viagem de volta é (quase sempre) a ler, o que faz com que nos últimos tempos tenha lido bem mais do que vinha a ser habitual.

Depois há todo um fenómeno sociológico em redor do commuting. Quem faz viagens de comboio superiores a 30 minutos sabe do que estou a falar. Porque andar de comboio é quase como fazer parte de uma comunidade e estabelecem-se alguns protocolos. Há pessoas, como eu, que por terem OCD* têm que ir sempre nos mesmos lugares (vario entre dois) que senão a viagem não corre bem e nós sabemos exatamente as caras que vamos encontrar na primeira carruagem, na segunda e por aí em diante. E claro, as barreiras sociais esvanecem-se. Imaginem: há um senhor que, frequentemente, se senta na cadeira à minha frente e está estabelecido que eu estico as pernas para o meio das pernas dele e ele estica as dele no sentido inverso; ele ressona bastante e eu, enquanto dormito, vou-lhe dando uns toquezinhos nos joelhos e, a verdade, é que ele deixa de ressonar por uns breves instantes até eu voltar a adormecer. Ou seja, uma pessoa que na verdade eu não conheço, de quem nem tão pouco sei o nome e, naquela hora, quase parecemos casados. Essencialmente é isto que se passa, num outro contexto qualquer, eu nunca teria as minhas pernas sequer encostadas às de um desconhecido, mas nos transportes públicos este tipo de fronteiras desvanece-se. Despimos as capas.

Claro que isto também leva a situações constrangedoras. Há pessoas que estou tão habituada a ver que sinto que conheço e depois, quando as vejo fora do contexto, cumprimento-as. Quer dizer, isto é um bocado parvo porque, pelo facto de eu até ser boa a decorar o rosto dos outros, não siginfica que eles sejam capazes do mesmo e depois ficam com aquele ponto de interrogação, do tipo "mas de onde é que eu conheço esta pessoa?".  

Claro que se há uma dimensão sociológica interessante, também há o lado menos positivo. Isto porque também é verdade que levamos todos os dias com aquelas pessoas que fazem questão de contar a vida toda para quem quiser ouvir e o inevitável revirar de olhos dos que se lhe rodeiam; sim, também é verdade que no verão levamos com as crianças todas dos jardins de infância a cantarem música durante o caminho t-o-d-o em que a vontade de saltar borda fora é muito grande... Mas quer dizer, é como em tudo, não é?

E portanto gente, é isto, uma vida passada em transportes públicos tem, de facto, algumas particularidades e a melhor de todas é este dimensionamento das relações humanas completamente diferente do que é habitual, é sentir falta de uma pessoa que nem conhecemos, mas que já não encontramos no comboio há muito tempo, é sentir que fazemos parte de uma pequena comunidade. E isso é bom. Pelo menos para mim.

 

*é uma piada gente, não tenho realmente OCD, mas algumas manias esquisitas.

6 comentários

Comentar post