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Loose Lips

Devaneios sobre tudo e sobre nada.

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15.Jan.18

O que é que vale mais na hora de recrutar: a média do curso ou a experiência profissional?

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Hoje, novamente, numa das minhas incursões no LinkedIn deparei-me com esta questão, por parte de uma utilizadora que de facto coloca várias questões hipotéticas, mas muito pertinentes sobre os preconceitos e pré-conceitos na área da Gestão de Pessoas (ou Recursos Humanos, como quiserem): o que é que vale mais na hora de recrutar - a média com que acabamos o curso ou a experiência profissional?

Ainda que considere esta situação hipotética parca em palavras, achei que vos devia trazer também este dilema, visto terem gostado tanto do último post neste formato. Full discloser: não trabalho diretamente na área do recrutamento e seleção, pelo que a minha opinião é sustentada no meu percurso e conhecimento académico e de boas práticas.

Depois de ter visto esta publicação e a discussão que se lhe seguiu, claramente padronizada - do lado do candidato 1 os recrutadores mais velhos e com experiência em indústrias essencialmente white collar e do lado do candidato 2 os recrutadores mais jovens, múltiplas experiências de trabalho em indústrias variadas. Ora, logo à partida, isto parece um prelúdio do pensamento atual. No entanto, acho que há outras questões a ter em consideração. 

Desde logo, a questão da Universidade ser altamente conceituada ou não é bastante subjetiva e sujeita a variadíssimas interpretações. Ainda que todos saibamos que a Universidade do Porto ou a Universidade Nova sejam conceituadas, isto acaba por ser muito variável de acordo com o curso ou a área de estudo. Por exemplo, para alguém que estude Medicina Veterinária a experiência será bem mais enriquecedora e prática na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, muitas vezes olhada de forma condescendente, do que na conceituada Universidade do Porto, através do Insituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar e isto tudo pelo meio em que as respetivas instituições estão inseridas e pela experiência prática a partir daí adquirida e desenvolvida. No caso de uma área como a Tradução, um curso num Insituto Politécnico trará mais-valias muito superiores ao curso numa Universidade, pelo facto de permitir explorar outras técnicas (caso da tradução simultânea), além de contar com uma componente substancialmente mais prática, que servirá como preparação para o trabalho futuro. O mesmo se aplica a áreas extremamente técnicas, como Contabilidade ou mesmo áreas laboratoriais. Portanto, como se vê esta questão não é assim tão linear.

Depois, claro, surge a temática ERASMUS. Ora, felizmente, a grande maioria dos estudantes universitários tem a possibilidade de fazer ERASMUS e as mais-valias são inegáveis, sobretudo ao nível das soft skills adquiridas, uma vez que os conhecimentos adquiridos variam em conformidade com a exigência do local de estudo - logo à partida eu diria que fazer ERASMUS na Holanda ou fazer ERASMUS na Bulgária trarão mais-valias completamente diferentes ao nível académico; não obstante, a capacidade de adaptação a um novo ambiente, o desenrascar, a experiência multicultural e a oportunidade, para muitos, de ver o mundo, trazem benefícios a todos os níveis e que, inegavelmente, se vão traduzir também na vida profissional. Ainda assim e reconhecendo toda as vantagens em fazer ERASMUS não me parece justo que, logo à partida, alguém que não fez ERASMUS porque até nem teve possibilidade para o fazer, deva ser excluído quando muitas destas competências podem ser adquiridas de outra forma. 

Ao nível do domínio do inglês nem me vou alongar. Isto porque, logo à partida eu diria que alguém que fez ERASMUS, ainda que possa não ser fluente em inglês, demonstra alguma desenvoltura ao nível das línguas, dado que, inevitavelmente, teria passado um período de pelo menos 3 meses a interagir noutra língua, o que, logo à partida representa um plus. Para além disso, a participação num programa deste tipo desenvolve um sem número de soft skills cada vez mais relevantes para o mundo laboral atual.

É claro que a média importa e isto é inegável. Importa porque demonstra o comprometimento, a orientação para resultados, mas não me parece que seja o fator principal, de todo.

Felizmente o panorama atual é de um mercado de trabalho cada vez mais despojado de pré-conceitos e onde as experiências pessoais e profissionais adquiridas ao longo da vida representam mais do que a Faculdade em que se tirou o curso. Isto porque, na verdade, a grande maioria de nós acaba por trabalhar numa área distinta daquela para a qual estudou ou que representa uma ínfima parte daquilo que estudou. Ainda que não haja uma resposta certa para a questão que foi levantada porque, novamente, dependerá da indústria ou cargo em causa, mas eu diria que, no panorama atual, o candidato 2 é mais apetecível à maioria das empresas que procuram, cada vez mais, a capacidade de adaptação a novos desafios. E parece-me que isto deita por terra muitas das ideias existentes sobre a colocação no mercado de trabalho e ainda bem.